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Jeremias 36:4-8
4 Chamou Jeremias a Baruque, filho de Nerias; e da boca de Jeremias escreveu Baruque, no rolo dum livro, todas as palavras de Jeová, que ele lhe havia falado.
5 Jeremias ordenou a Baruque, dizendo: Eu estou encarcerado; não posso entrar na casa de Jeová.
6 Entra tu, pois, e pelo rolo, que tens escrito da minha boca, lê todas as palavras de Jeová aos ouvidos do povo, na casa de Jeová, no dia de jejum; também as lerás aos ouvidos de todos os de Judá que vêm das suas cidades.
7 Pode ser que eles apresentem a sua súplica diante de Jeová e se tornem cada um do seu mau caminho; pois grande é a ira e o furor que Jeová pronunciou contra este povo.
8 Fez Baruque, filho de Nerias, segundo tudo o que o profeta Jeremias lhe ordenou, lendo no livro as palavras de Jeová na casa de Jeová.
Jeremias 36:4-8 explicação
Em Jeremias 36:4-8, Baruque, filho de Nerias e membro de uma família respeitada (Jeremias 32:12), atua como fiel escriba e colaborador de Jeremias em seu ministério: Chamou Jeremias a Baruque, filho de Nerias; e da boca de Jeremias escreveu Baruque, no rolo dum livro, todas as palavras de Jeová, que ele lhe havia falado (v. 4). Conforme ditado por Jeremias, ele transcreve todas as palavras de Jeová (v. 4) — uma expressão abrangente que provavelmente inclui profecias proferidas ao longo de décadas. Escrever num rolo transforma a palavra falada em um registro permanente, um ato tanto de obediência quanto de preservação.
No antigo Oriente Próximo, os pergaminhos (normalmente de papiro ou couro) simbolizavam a permanência da lei e a autoridade real. Assim, este momento transforma as profecias de Jeremias de proclamação oral em documento escrito da aliança. Assim como Moisés registrou por escrito as palavras da Lei (Êxodo 24:4), Jeremias garante que a mensagem de Deus não se limite à sua própria voz, mas seja preservada por escrito. Esse processo também antecipa a formação das Escrituras, à medida que a palavra profética proclamada se torna texto sagrado, preservado para as gerações futuras.
Jeremias 36:5 apresenta a ordem: Jeremias ordenou a Baruque, dizendo: Eu estou encarcerado; não posso entrar na casa de Jeová (v. 5). A "restrição" de Jeremias pode se referir à sua prisão ou a uma proibição imposta pelo rei Jeoaquim e pelas autoridades do templo (cf. Jeremias 32:2; 36:26). O profeta que antes se colocava à porta do templo para pregar (Jeremias 7:1-2) agora está impedido de entrar. Sua exclusão dramatiza o estado espiritual de Judá: a voz de Deus está literalmente silenciada no santuário.
Ainda assim, Jeremias encontra uma maneira de fazer a Palavra de Deus chegar ao povo. Seu confinamento físico não pode silenciar a revelação divina. A tensão é poderosa: o mensageiro de Deus está preso, mas a mensagem de Deus permanece livre. Esse padrão encontra um paralelo posterior no ministério de Paulo, que, mesmo encarcerado, declara: “A palavra de Deus não está presa” (2 Timóteo 2:9).
“Entra tu, pois, e pelo rolo, que tens escrito da minha boca, lê todas as palavras de Jeová aos ouvidos do povo, na casa de Jeová, no dia de jejum; também as lerás aos ouvidos de todos os de Judá que vêm das suas cidades.”
Jeremias instrui Baruque a entregar a mensagem no coração do culto público, “na casa de Jeová, no dia de jejum”. Tais jejuns eram momentos de arrependimento comunitário, frequentemente proclamados em momentos de crise (Joel 1:14; 2 Crônicas 20:3-4). Ao escolher essa ocasião, Jeremias visa a consciência da nação em um momento em que os corações poderiam estar mais sensíveis.
O alcance é amplo: “todos os de Judá que vêm das suas cidades”. Peregrinos de todo o reino se reuniam no templo para jejuar e orar. A leitura de Baruque torna-se, assim, uma transmissão nacional de advertência divina. O profeta, embora ausente, ainda se dirige a toda a comunidade da aliança por meio da palavra escrita.
“Pode ser que eles apresentem a sua súplica diante de Jeová e se tornem cada um do seu mau caminho; pois grande é a ira e o furor que Jeová pronunciou contra este povo”
Aqui Jeremias revela sua motivação: a esperança de que o povo se arrependa. A expressão “Pode ser” reflete a postura humilde do profeta — a misericórdia de Deus não é presumida, mas buscada com esperança. A mensagem de julgamento de Jeremias nunca é fatalista; seu propósito é conduzir à transformação. Se o povo “se converter do seu mau caminho”, a ira divina ainda poderá ser afastada.
Este versículo captura a essência pastoral do ministério de Jeremias. Ele anseia pelo arrependimento da nação, não por sua ruína. Mesmo nos momentos finais da rebelião de Judá, Deus ainda convida o povo à oração e à mudança de vida. A tensão entre justiça e misericórdia — “grande é a ira... mas talvez eles se convertam” — permeia todo o livro e encontra seu cumprimento definitivo em Cristo, que assume sobre Si o juízo devido ao pecado para oferecer perdão e reconciliação.
“Fez Baruque, filho de Nerias, segundo tudo o que o profeta Jeremias lhe ordenou, lendo no livro as palavras de Jeová na casa de Jeová"
A obediência de Baruque completa a cadeia de fidelidade. Ele cumpre sua missão à risca, arriscando a própria segurança ao ler publicamente uma mensagem que certamente ofenderia as autoridades. A expressão “lendo no livro” não significa uma recitação casual, mas uma proclamação formal — Baruque representa a voz do profeta, e o rolo, a presença do profeta.
Por meio de Baruque, a Palavra de Deus penetra no próprio espaço que havia excluído Jeremias. Dessa forma, o rolo escrito torna-se um ato tanto de desafio quanto de fé: mesmo quando o profeta não pode entrar, a Palavra do SENHOR entra no templo e alcança o povo. Essa cena antecipa momentos posteriores da história bíblica em que a Palavra escrita transmite a autoridade divina a públicos que ultrapassam o alcance físico do profeta, culminando nas próprias Escrituras como testemunho permanente da voz de Deus para todas as gerações.