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2 Pedro 1:3-4 explicação

2 Pedro 1:3-4 explica que o verdadeiro conhecimento do Senhor produz o poder de Deus para dar aos crentes tudo o que precisam para viver uma vida cristã vitoriosa. Também ajuda os crentes a crescer em sua comunhão íntima com Deus, que os convidou a desfrutar dessa comunhão cercados por Sua própria glória e excelência. É por meio desse verdadeiro conhecimento e poder de Deus que Ele concede aos crentes Suas maravilhosas promessas, para que, por meio delas, os crentes possam compartilhar da natureza de Deus e evitar os resultados destrutivos do pecado.

Em 1 Pedro 1:3-4, o apóstolo Pedro continua sua descrição do ponto de partida comum de uma “fé da mesma espécie que a nossa” mantida por todos os crentes, afirmando que cada crente nasce para uma esperança viva de vida eterna e possui uma herança imperecível.

Tendo introduzido no versículo 2 o conceito de verdadeiro conhecimento, “epignósis”, que significa um conhecimento mais profundo e íntimo de Deus, Pedro agora continua a dar mais detalhes sobre esse verdadeiro conhecimento no versículo 3.

Podemos fazer a seguinte análise da estrutura do versículo 3:

• visto que- referindo-se a uma razão ou causa.
• o seu divino poder - significando o poder, a força e a capacidade de Deus (1 Pedro 1:5).
• tem dado - implicando a doação de um presente gratuito.
• nos - referindo-se tanto a Pedro quanto aos seus leitores crentes.
• tudo - significando tudo o que é necessário.
• o que diz respeito - o contexto indica vida espiritual e abundante (1 Pedro 3:7).
• à vida e à piedade - do grego “eusebeia”, uma palavra que implica uma devoção a Deus que O coloca acima de qualquer outra coisa em nossa vida, a ponto de morrer por Ele (1 Timóteo 4:7).
• pelo - indicando os meios pelos quais a vida e a piedade vêm.
• pleno conhecimento - do grego “epignósis”, que significa um conhecimento mais profundo, mais rico, mais completo e mais íntimo (João 17:3, Filipenses 3:8, 2 Pedro 1:2, 8, 2:20, 3:18).
• daquele que - referindo-se a Deus (2 Pedro 1:2)
• que nos chamou - significando que Deus convidou tanto Pedro quanto seus leitores (2 Tessalonicenses 2:12, 14, 1 Pedro 5:10).
• por - a construção da gramática grega poderia ser traduzida como “para” (1 Pedro 5:10).
• sua glória  - referindo-se ao esplendor da presença de Deus no Céu (1 Pedro 1:11)
• e virtude - significando a superioridade do caráter virtuoso de Deus (Filipenses 4:8, 2 Pedro 1:5).

Resumindo todas as observações anteriores, Deus está nos declarando que concedeu aos crentes tudo o que é necessário para uma caminhada cristã piedosa, que leve à experiência plena da vida. Não nos falta nada. Não precisamos de uma segunda bênção ou de uma capacitação adicional. Não necessitamos de um ministério especial para nos revestir de poder. Cada crente já possui todo o poder necessário para participar e viver segundo a verdadeira natureza de Deus.

Cada crente possui a capacidade de tomar a sua cruz diariamente e seguir Jesus (Lucas 9:23-24). Cada crente possui a plena capacidade de completar o difícil caminho que conduz à vida (Mateus 7:13-14).

A chave para aplicar o poder de Deus e viver vitoriosamente no dia a dia é percorrer uma progressão de aprendizado sobre como acessar e utilizar esse poder. Pedro nos orientará nessa progressão em 2 Pedro 1:5-7. Cada crente possui a capacidade e o poder de alcançar um conhecimento profundo e pessoal de Deus. Podemos aplicar esse poder com fé para enfrentar as dificuldades da vida.

O poder divino que Deus nos concedeu é o nosso meio para alcançar tudo o que diz respeito à vida e à piedade. A palavra grega traduzida como "vida" é "zoe", que se refere à qualidade e à experiência da vida. Vida é conexão, e a chave para vivenciarmos uma experiência de vida mais profunda, plena e rica é aprofundar nossa intimidade e comunhão, nossa conexão com Deus.

Foi Deus quem nos criou. Ele nos projetou para estarmos conectados com Ele e uns com os outros. Este é o poder do amor: conectar-nos a Deus por meio de Cristo e uns aos outros, vivendo o amor de Cristo em comunhão uns com os outros.

Alcançamos realização quando vivemos de acordo com nosso projeto. Pecado é morte, que é separação. Satanás e o mundo buscam nos separar do nosso projeto criativo. Temos o poder divino para viver de maneira plenamente conectada a Deus e alcançar tudo o que diz respeito à vida e à piedade.

Ao acrescentar a piedade à vida, Pedro qualifica que a verdadeira vida é conquistada por meio da conexão com Deus. A conexão com Deus se dá por meio do pleno conhecimento de Deus, o que Pedro chama de verdadeiro conhecimento (“epignósis”).

Esse conhecimento é adquirido por meio de uma caminhada de fé. Como veremos na próxima seção, o conhecimento procede da decisão de acrescentar “virtude” à nossa fé. Trata-se de uma escolha deliberada de aplicar a fé na jornada cotidiana. É através do aprendizado e da prática da fé que alcançamos a “epignósis”  o conhecimento profundo e pessoal de Deus.

Deus nos chamou para Sua própria glória e excelência. A palavra grega traduzida como excelência é "areté", que significa ter o mais alto caráter moral.

Areté” é frequentemente traduzida como “virtude”. Na cultura grega clássica, o termo designava qualquer feito notável ou impressionante que causasse admiração a quem o testemunhasse. Por exemplo, na Ilíada de Homero, a palavra é usada para descrever a habilidade extraordinária de Aquiles durante os combates na Guerra de Troia. Alguns estudiosos veem uma possível ligação entre Ares (o deus grego da guerra) e “areté” como a excelência manifesta em batalha.

Com o tempo, os gregos começaram a usar "areté" para descrever outros tipos de excelência além do âmbito da guerra. Mas foram os filósofos gregos Sócrates, Platão, Aristóteles etc. que deram a "areté" (virtude) seu significado moral. Eles acreditavam que a alma (a mente, o coração e os desejos de uma pessoa) era a parte essencial do que tornava uma pessoa humana. E que cada parte da alma tinha sua própria virtude/"areté" ou estado de excelência.

Os filósofos gregos consideravam “areté” o nível mais elevado de realização moral, que também conduzia à maior realização na vida. Veremos “areté” novamente em 2 Pedro 1:5, onde é traduzido como “excelência moral”. Vemos que Deus chamou os crentes por Sua própria glória e “areté” (excelência). Por meio de Cristo e do conhecimento de Deus, os crentes também podem alcançar “areté” (excelência moral - 2 Pedro 1:5).

Faz sentido lógico que os crentes que adquirem um conhecimento profundo de Deus, consequentemente, manifestem “areté” a excelência moral divina. No entanto, 2 Pedro 1:5 indica que alcançamos o conhecimento de Deus primeiro acrescentando “virtude” (“areté”) à nossa fé. Portanto, conclui-se que o conhecimento de Deus é obtido por meio da prática da fé na caminhada diária. Viver pela fé, como crente, é um estilo de vida, não um mero exercício intelectual.

A palavra glória na frase "nos chamou pela sua própria glória e excelência" traduz a palavra grega "doxa", que se refere à essência de alguém ou algo que está sendo observado. Isso pode ser visto em 1 Coríntios 15:41, que afirma que a lua e o sol têm uma "glória" diferente. Isso ocorre porque eles têm uma essência diferente que pode ser observada.

Foi a partir da glória de Deus, de Sua essência e caráter moral, que Ele nos chamou. Isso infere que o chamado de Deus é para que os crentes andem em Seu caráter e vivam Sua essência em suas ações diárias. Este é o resultado pretendido da progressão que Pedro apresenta nesta carta. Como veremos em 1 Pedro 1:7, o ápice da nossa jornada de fé é o amor. Visto que Deus é amor, viver no caráter e na essência de Deus é andar em amor (1 João 1:8).

A mensagem de Pedro é semelhante à do apóstolo Paulo em Romanos. Paulo afirma em seu versículo temático para Romanos (Romanos 1:16-17) que o evangelho de Cristo é o poder de Deus para salvar/libertar os crentes da injustiça e nos conduzir à justiça por meio de uma caminhada de fé, dizendo: "O justo viverá pela fé".

O conceito hebraico de justiça é semelhante ao conceito hebraico de paz/“shalom” ambos refletem viver em harmonia com o desígnio de Deus. Quando Pedro desejou “paz” aos seus seguidores em 1 Pedro 1:2, ele desejava que eles experimentassem a excelência moral/caráter de Deus em sua caminhada de fé, por meio do conhecimento de Deus por meio de Cristo.

Após mencionar o poder de Deus e o verdadeiro conhecimento daquele que nos chamou para a sua própria glória e excelência, Pedro introduz a conjunção “pelas” (v. 4). “Pelas” é o que inicia a explicação da frase anterior, seguida por “quais”. A gramática grega indica que o pronome “quais” refere-se tanto ao poder divino quanto ao verdadeiro conhecimento, a “epignósis" de Deus, que Pedro mencionou no versículo 3.

A preposição “pelas” na expressão “pelas quais” tem valor causal, indicando que é pelas quais ele, referindo-se ao próprio Deus, concedeu um grande dom: o dom de Suas preciosas e magníficas promessas. Esse dom de poder e conhecimento foi outorgado por Deus; ele nos é dado, tanto a Pedro quanto a seus leitores cristãos e a essência desse dom reside nas Suas promessas.

Essas promessas têm o efeito prático de nos tornar participantes da natureza divina. Isso significa que, em Cristo, possuímos o poder e a capacidade de viver como Ele viveu e andar como Ele andou. Temos a possibilidade de que Cristo viva em nós e por meio de nós. O fato de termos recebido a habilidade de viver e agir segundo o próprio caráter de Deus torna essas promessas preciosas e magníficas. Em retrospecto, isso soa quase como um eufemismo, pois as palavras são insuficientes para descrever a realidade extraordinária contida nessa promessa.

As promessas de Deus são descritas como preciosas e magníficas. São preciosas por seu valor inestimável e por serem dignas de toda honra (1 Pedro 1:19). São magníficas por sua grandeza extraordinária e superioridade em relação a qualquer outro bem que possamos obter. Por meio de uma caminhada de fidelidade, vivendo conforme a natureza divina de Cristo, podemos alcançar plenitude nesta vida e obter a grande recompensa de uma entrada abundante no reino eterno de Deus (2 Pedro 1:11).

Veremos mais adiante nesta carta que os escarnecedores parecem questionar a existência de um juízo final ou de uma vida futura (2 Pedro 3:3-4). Se não houver julgamento, então não haveria consequências para as nossas escolhas. No entanto, Pedro rejeita vigorosamente essa noção, chamando tais falsos mestres de “escarnecedores” que “andam segundo as suas próprias paixões” (2 Pedro 3:3). Infere-se que o objetivo deles é justificar uma vida carnal, satisfazendo seus desejos, enquanto afirmam que Deus não retornará para julgar o mundo.

Pedro deixará claro que viver no pecado traz consigo o juízo de Deus. Ele usará o dilúvio de Noé como exemplo do julgamento divino nesta carta, assim como já fizera em sua primeira epístola (1 Pedro 3:20; 2 Pedro 3:5-6). Deus aguardou longamente para que o mundo se arrependesse, mas finalmente o julgou com o dilúvio (Gênesis 6:3; 7:21). Assim também será nos últimos dias: Deus julgará o mundo após uma longa pausa, destinada a dar oportunidade de arrependimento a muitos (2 Pedro 3:9).

Além disso, o céu e a terra atuais serão destruídos pelo julgamento do fogo e substituídos por uma nova terra cheia de justiça (2 Pedro 3:7, 13). Diante disso, faz sentido que os crentes vivam e busquem a justiça por meio de um conhecimento aprofundado e pleno de Cristo (“epignósis”). Isso não apenas proporciona uma experiência aprimorada da vida agora, mas também nos prepara para a vida na nova terra.

Portanto, é a verdade profética das recompensas prometidas juntamente com a vinda de Cristo e o mundo vindouro que deve motivar os crentes a viverem vitoriosamente. Pedro explica: para que, por meio delas, referindo-se às magníficas promessas proféticas mencionadas, vocês, leitores crentes, se tornem participantes da natureza divina.

A palavra grega “koinonos” é traduzida como “participantes”. Refere-se a alguém que toma parte ou se associa a algo. Em 1 Pedro 5:1, Pedro usa “koinonos” para falar de sua participação na visão de Cristo glorificado durante a transfiguração. Isso lhe deu uma antevisão da “glória que há de ser revelada” quando Cristo retornar (1 Pedro 5:1). Essa mesma glória pode ser alcançada por nós como grande recompensa, se vivermos como testemunhas fiéis (2 Pedro 1:11).

A admoestação de Pedro é para que esses crentes sejam participantes da natureza divina de Cristo por meio de uma caminhada de fé, assim como ele teve a oportunidade de participar da visão de Jesus transfigurado e da revelação de sua glória. Pedro mostrará a cada crente como trilhar esse caminho e participar dessa glória na progressão da caminhada de fé descrita em 2 Pedro 1:5-8.

A natureza divina de Cristo, da qual os crentes participam, é contrastada por Pedro com seu oposto: a corrupção existente no mundo devido à concupiscência. Escapamos das consequências da concupiscência, que levam à morte, ao tomarmos parte, pela fé, na natureza divina de Cristo. Essa natureza divina é plena de “areté”, ou excelência moral, que conduz ao conhecimento profundo (“epignósis”) de Deus e, finalmente, ao amor (2 Pedro 1:5-8). Essa mesma ideia é aplicada por Paulo ao exortar o abandono da velha natureza (a “carne”) e o viver segundo o Espírito (Romanos 8:4).

As promessas proféticas de compartilhar a glória de Cristo e evitar o julgamento adverso (que advém de seguir a concupiscência do mundo) não apenas devem motivar os crentes a viver vidas piedosas, mas também ajudam os crentes a superar as tentações mundanas. Observe que os crentes são apresentados como tendo escapado da corrupção que há no mundo pela concupiscência. A palavra traduzida como "escapou" é usada apenas por Pedro (2 Pedro 1:4, 2:18, 20) significa "evitar".

O que os crentes evitam ao viver a natureza divina em Cristo é descrito como a corrupção do mundo. A palavra grega traduzida como corrupção implica destruição e ruína. Essa destruição e ruína é o que está no mundo. A palavra mundo, neste contexto, refere-se à Terra governada por Satanás (1 João 2:16-17). Jesus chamou Satanás de "o príncipe deste mundo" em João 12:31. Jesus "expulsou" Satanás como príncipe, e toda a autoridade foi dada a Ele (Mateus 28:18). Como resultado, Jesus restaurou o direito dos humanos de reinar na Terra, de acordo com o desígnio original de Deus (Hebreus 2:9). A restauração completa ainda está por vir (2 Pedro 3:13).

A corrupção ruinosa que há no mundo vem da concupiscência. A preposição "por" refere-se a como a destruição e a ruína acontecem na vida do crente. A palavra "concupiscência" significa simplesmente um forte desejo. O contexto aqui indica que o forte desejo em questão é o desejo de ganhar as coisas do mundo, coisas que levam à morte.

O apóstolo Paulo apresenta uma progressão da ira de Deus que desce sobre a concupiscência do mundo. A ira de Deus, neste contexto, é a consequência natural do pecado. Se persistirmos em perseguir nossas concupiscências, a ira de Deus começa quando Ele nos entrega aos nossos desejos, às nossas concupiscências mundanas (Romanos 1:24). Então, Sua ira prossegue, permitindo que sejamos controlados por nossos desejos; o que comumente chamamos de vício (Romanos 1:26). Então, culmina na perda da estabilidade mental (Romanos 1:28). Somos separados de nós mesmos, tornando-nos escravos de nossos apetites e medos, o que é a morte.

Tiago expressa a mesma verdade de modo distinto: ele afirma que a tentação não surge das circunstâncias externas, mas das nossas próprias paixões ou concupiscências mundanas (Tiago 1:14). Então, quando a concupiscência é concebida, gera o pecado; e o pecado, uma vez consumado, produz morte (Tiago 1:15). O modo de evitar essa morte, essa separação do nosso propósito divino, é deixar de lado a maldade interior, a concupiscência da carne, e receber em seu lugar a Palavra de Deus (Tiago 1:21).

Pedro concorda com Paulo e Tiago ao ensinar que é caminhando na fé, apoiados nas promessas divinas, que evitamos a corrupção presente no mundo, causada pela concupiscência. Para nos tornarmos participantes da natureza divina, precisamos seguir a progressão que ele apresenta em 2 Pedro 1:5-7: acrescentar à nossa fé a excelência moral, que conduz ao conhecimento, depois ao domínio próprio, à perseverança, à piedade, à fraternidade e, finalmente, ao amor.

Por causa das promessas proféticas que Deus nos concede, os crentes têm o poder, em Cristo, para evitar as consequências destrutivas de ceder aos fortes desejos maus que emergem do sistema mundano em que vivemos. Essas promessas proféticas devem funcionar como uma motivação poderosa para avançarmos em direção à maturidade, conforme revela 2 Pedro 1:5-7.