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Atos 26:1-8
1 Agripa disse a Paulo: A ti se te permite fazer a tua defesa. Então, Paulo, estendendo a mão, começou a defender-se:
2 Julgo-me feliz, ó rei Agripa, por ter de fazer hoje, perante ti, a minha defesa de tudo o que me acusam os judeus,
3 mormente porque és versado em todos os costumes e questões que há entre eles; pelo que te rogo que me ouças com paciência.
4 Quanto à minha vida durante a mocidade, que passei desde o princípio entre o meu povo e em Jerusalém, sabem-na todos os judeus,
5 conhecendo-me desde o princípio (se quiserem dar disso testemunho), como vivi fariseu conforme a seita mais severa da nossa religião.
6 Agora, estou aqui para ser julgado pela esperança da promessa feita por Deus a nossos pais,
7 a qual as nossas doze tribos, servindo a Deus fervorosamente de noite e de dia, esperam alcançar; por causa dessa esperança, ó rei, sou acusado pelos judeus.
8 Por que é que se julga entre vós coisa incrível ressuscitar Deus aos mortos?
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Atos 26:1-8 explicação
Em Atos 26:1-8, Paulo começará a dar seu testemunho ao rei Agripa II, à sua irmã Berenice e a uma multidão de comandantes romanos e cidadãos da elite de Cesareia.
O rei Agripa II havia ido a Cesareia para encontrar-se com o novo governador, Festo. Após tomar conhecimento da prisão de Paulo e de seu recurso a César, Agripa II pediu que Paulo fosse ouvido. No dia seguinte, uma plateia composta por nobres e altas autoridades reuniu-se no auditório para essa audiência.
Paulo apelou a César para evitar ser transferido de volta a Jerusalém, onde os líderes judeus planejavam matá—lo.
Nessa audiência, Festo apresentou Paulo, explicando que não havia conseguido decidir o que escrever a César sobre esse prisioneiro em relação ao seu caso, visto que não entendia a hostilidade dirigida às crenças religiosas de Paulo.
O rei Agripa II incentiva Paulo a começar: Agripa disse a Paulo: A ti se te permite fazer a tua defesa. (v. 1).
Não haverá interrogatório nem processo judicial. Não se trata de um julgamento formal, nem de um debate. Paul está simplesmente sendo autorizado a falar por si mesmo.
Paulo concorda: Então, Paulo, estendendo a mão, começou a defender-se: (v. 1)
O gesto de Paulo estender a mão ao iniciar seu discurso era comum no século I; oradores costumavam usar movimentos das mãos ao se dirigir a uma audiência. Com a palavra concedida, Paulo prosseguiu com sua exposição. Ele não estava apresentando uma defesa no sentido de um julgamento em curso, pois já havia apelado a César, e nenhum tribunal romano poderia então decidir seu caso, exceto o próprio Imperador em Roma.
Porém, Paulo apresentará uma argumentação eficaz em defesa de sua inocência. Ele exporá seu caso ao rei terreno de seu próprio povo - os judeus. Ao defender-se, ele também sustentará a causa do evangelho, que é sua verdadeira prioridade. Paulo já deixara claro que não valorizava sua vida, mas apenas a obediência à missão de Cristo (Atos 20:24).
Além disso, uma grande multidão da elite de Cesareia se reuniu no auditório para ouvir Paulo testemunhar em seu próprio nome. Tanto comandantes romanos de alta patente quanto homens proeminentes da cidade estavam presentes. Possivelmente também havia judeus presentes, acompanhando seu rei judeu, Agripa II (Atos 25:23).
A atitude de Paulo é positiva diante dessa oportunidade de explicar suas ações e suas convicções. Ele não se limitará a defender-se, mas também pregará com o objetivo de persuadir seus ouvintes a crer em Jesus Cristo. O propósito de vida de Paulo é proclamar o evangelho, o que ele faz de forma voluntária e ousada em todas as ocasiões (Atos 9:20; 17:2-3, 22; 20:20-21; Romanos 1:14-16; 1 Coríntios 9:16-18). Em sua carta aos filipenses, Paulo esclarece que, mesmo que alguns pregassem o evangelho com motivações questionáveis, ele se alegrava por a mensagem estar sendo anunciada.
Paulo inicia sua defesa perante Agripa II com uma introdução formal e respeitosa:
Julgo-me feliz, ó rei Agripa, por ter de fazer hoje, perante ti, a minha defesa de tudo o que me acusam os judeus (v. 2).
Paulo explica logo de início que falará a respeito de todas as coisas de que é acusado pelos judeus, isto é, pela liderança judaica de sacerdotes e rabinos sediada em Jerusalém. Agripa II soube que o Sinédrio (o conselho governante dos judeus) processou Paulo duas vezes (Atos 24:1, 25:7) e que Paulo apelou para César.
As elites cesarianas presentes provavelmente também sabem disso, que esse homem, Paulo, foi acusado pelos judeus de muitas coisas diferentes, embora provavelmente não saibam exatamente quais são as acusações, e talvez seja por isso que vieram ouvir Paulo falar em sua própria defesa.
Nesta introdução, Paulo demonstra respeito ao rei Agripa II, declarando: "Julgo-me feliz... por ter de fazer hoje, perante ti, a minha defesa de tudo o que me acusam". Paulo especifica que se sente afortunado por Agripa ser seu ouvinte naquele momento. Ele explicará os motivos em sua próxima declaração. Paulo acredita que Agripa II, mais do que ninguém, ouvirá sua defesa com compreensão e discernimento.
Essa atitude reflete a confiança de Paulo tanto em sua inocência quanto em sua fé em Deus. Ele trata Agripa II com sincera cortesia, mantendo a mesma postura que sempre adotou ao pregar o evangelho, não apenas diante de reis e governadores como Agripa II e Félix (Atos 24:10), mas também perante a multidão de judeus que, dois anos antes, buscavam matá-lo em Jerusalém, os quais ele chamou de “irmãos e pais” (Atos 22:1).
A esperança de Paulo, como ele declarará no final deste capítulo, é que todos os homens e mulheres sejam reconciliados com Deus por meio da fé no Messias, Jesus (Atos 26:29).
O motivo pelo qual Paulo se considera afortunado por poder apresentar sua defesa pessoalmente ao Rei Agripa II é que o Rei Agripa II é a pessoa mais indicada para ouvir a mensagem de Paulo:
Mormente porque és versado em todos os costumes e questões que há entre eles; pelo que te rogo que me ouças com paciência (v. 3).
Agripa II é um ouvinte especialmente adequado para Paulo porque, como rei terreno dos judeus, ele é um especialista em todos os costumes e questões entre os judeus. Agripa II é o chefe dos judeus, politicamente falando. Ele é o judeu de mais alta posição. Paulo dirige—se a ele com a generosa convicção de que Agripa II é devoto e conhecedor do judaísmo, da Lei e de todos os costumes e questões importantes para os judeus.
Agripa II possuía autoridade, concedida por Roma, sobre o templo e seus recursos financeiros, além do poder de nomear o sumo sacerdote (Flávio Josefo, Antiguidades Judaicas, Livro XX, Capítulo 1.3). Ele era um estudioso da história judaica e dos assuntos contemporâneos, tendo fornecido mais de sessenta cartas a Flávio Josefo como fontes para suas obras históricas sobre os judeus.
De acordo com uma tradição judaica, Agripa (provavelmente o II, e não seu pai) foi convidado a ler a Torá em uma assembleia e começou a chorar ao recitar Deuteronômio 17:15: “Não podereis reinar sobre vós um estrangeiro que não seja da vossa terra”. Sua emoção vinha do fato de ser descendente de Herodes, o Grande, um idumeu e não um judeu étnico. No entanto, a assembleia o consolou, dizendo: “Tu és nosso irmão” (Mishná, Tratado Sotah 41a-b). Se o relato for verídico, ele reflete a reverência de Agripa II pela Torá.
Como Agripa II era um especialista em todos os costumes e questões do judaísmo, Paulo pediu—lhe paciência. Ele disse: "pelo que te rogo que me ouças com paciência". Paulo apresentará sua defesa lentamente, passo a passo, em detalhes. Ele contará brevemente sua história de vida, pois sua criação e trajetória profissional são pontos cruciais em sua jornada de fé.
Um dos aspectos que tornam a história de Paulo tão notável é que ele já esteve do outro lado. Ele não era um observador neutro, mas um ativo adversário dos que criam em Cristo. Pertencia à elite judaica e caminhava para se tornar um fariseu influente e poderoso; poderia até ter alcançado o Sinédrio, o conselho governante judaico, se Jesus não tivesse transformado sua vida. Ele foi, um dia, um dos judeus que acusavam, perseguiam e condenavam os seguidores de Jesus. Agora, está do lado da defesa, preparando-se para argumentar em favor de Jesus como o Cristo.
Este é o terceiro relato do testemunho pessoal de Paulo registrado no livro de Atos (Atos 9:1-19; 22:3-21). É possível que Paulo tenha compartilhado essa narrativa em outras ocasiões ao pregar o evangelho. Ela funcionava como um testemunho convincente do poder de Jesus Cristo, demonstrando que um fariseu perseguidor estaria disposto a renunciar a tudo, prestígio, posição e segurança, para servir à causa de Jesus.
O fato de Lucas, autor de Atos, registrar o testemunho de Paulo três vezes destaca a importância e o impacto de sua transformação. Isso reafirma seu chamado apostólico, frequentemente questionado por falsos mestres que tentavam desvirtuar as igrejas por ele fundadas (Gálatas 1:1, 11-12; 1 Coríntios 9:1-3; 2 Coríntios 12:11-12; 10:10; Romanos 1:1).
Parece provável que Lucas tenha escrito Atos em parte para validar a nomeação direta de Paulo como apóstolo por Jesus. A menção repetida da conversão de Paulo reforça que sua missão como apóstolo veio diretamente do próprio Senhor.
Este relato em Atos 26 contém diversas informações que não são encontradas nos outros dois relatos. O registro bíblico contém o que Deus quer que aprendamos.
Após se dirigir ao principal membro de sua plateia, Agripa II, Paulo começa a contar a história de sua vida:
Quanto à minha vida durante a mocidade, que passei desde o princípio entre o meu povo e em Jerusalém, sabem-na todos os judeus (v. 4).
Paulo faz uma afirmação significativa logo no início: todos os judeus conhecem seu modo de vida desde a juventude. Isso implica que ele era bem conhecido entre a elite judaica, sendo uma figura promissora no meio farisaico (Gálatas 1:14). Sua conversão de fariseu a apóstolo de Jesus de Nazaré era, aparentemente, de domínio público, o que é compreensível, já que Paulo liderava a perseguição contra os cristãos, e sua "deserção" certamente chegou ao conhecimento da liderança judaica.
Desde jovem, Paulo levava a vida de um judeu devoto, em preparação para se tornar fariseu. Embora tenha nascido em Tarso, na Cilícia (atual Turquia), e fosse cidadão romano, ele também era judeu. Passou a maior parte da sua vida na Judeia, como discípulo do proeminente rabino Gamaliel (Atos 22:3).
Paulo passou sua juventude em sua própria nação, a Judeia, principalmente na capital, Jerusalém. Ele apresenta isso como um fato biográfico verificável, conhecido por todos os judeus, referindo-se, provavelmente, aos judeus influentes da época. Aqueles mesmos que agora buscavam acusá-lo conheciam Paulo e seu modo de vida desde seus primeiros anos.
Conhecendo-me desde o princípio (se quiserem dar disso testemunho), como vivi fariseu conforme a seita mais severa da nossa religião (v. 5).
Paulo está, de certa forma, convocando seus acusadores para que atuem como testemunhas e confirmem o que ele diz até aquele ponto. Tais acusadores podem já ter voltado a Jerusalém, mas é possível que alguns tenham permanecido por perto, na esperança de encontrar uma maneira de eliminar Paulo antes de sua partida para Roma.
Paulo os cita como prova de que, como o conhecem há muito tempo (essencialmente, desde a juventude ), poderiam confirmar o que ele diz sobre sua história pessoal. Que, se estiverem dispostos a testemunhar, diriam a Agripa II a mesma coisa que Paulo afirma agora: que ele viveu como fariseu, segundo a seita mais rigorosa de nossa religião.
Não se trata apenas de Paulo ter vivido como fariseu durante toda a sua juventude e idade adulta, mas sim de ter sido um dos fariseus mais radicais. Ele seguia a Lei e os costumes judaicos de acordo com a observância da seita mais estrita da nossa religião. Em sua carta aos Coríntios, Paulo descreveu a si mesmo em termos semelhantes, dizendo que era...
“Circuncidado ao oitavo dia, da raça de Israel, da tribo de Benjamim, hebreu de hebreus. Quanto à Lei, fui fariseu; quanto ao zelo, persegui a Igreja, tendo-me tornado irrepreensível quanto à justiça que há na Lei.”
(Filipenses 3:5-6)
Antes de prosseguir com sua história de vida, Paulo salta para o final. Ele explica o principal motivo pelo qual a liderança judaica o persegue. Tendo estabelecido seu ponto de partida, Paulo explica onde chegou:
Agora, estou aqui para ser julgado pela esperança da promessa feita por Deus a nossos pais (v. 6).
Este esclarecimento inicial ajuda a contextualizar o caso de Paulo. Não será um mistério à medida que ele narra sua história em detalhes. Também responde à acusação de que Paulo estaria de alguma forma blasfemando contra o templo, a Lei ou o judaísmo (Atos 21:28, 24:6).
Paulo está falando tematicamente sobre o judaísmo: a experiência de Agripa II nos costumes judaicos, a própria criação de Paulo na Judeia, sua notoriedade entre as elites judaicas e sua formação como um fariseu rigoroso.
Ao abordar a acusação que lhe é feita, Paulo demonstra que sua fé em Jesus como o Messias prometido a Israel é uma continuidade e um cumprimento do judaísmo, e não uma ruptura. Ele está sendo julgado, no presente, pela esperança na promessa que Deus fez aos patriarcas dos judeus. Deus prometeu enviar um libertador semelhante a Moisés, o Filho de Davi e rei de Israel, e Paulo testemunha que Deus cumpriu exatamente essa promessa (Deuteronômio 18:18; 2 Samuel 7:12-13). É por isso que ele está sendo acusado: por crer que o que Deus disse é verdade.
Paulo diz "nossos pais", enfatizando novamente que ele é judeu e que os patriarcas de Israel são seus pais, assim como são os pais de seus acusadores. Paulo e seus acusadores pertencem à mesma nação: Israel. São da mesma família: Israel. São herdeiros da mesma promessa, e é por crer nessa promessa que Paulo é acusado. Paulo implica aqui que ele é o verdadeiro judeu crente, e seus acusadores, os apóstatas.
Os patriarcas referem—se a Abraão, Isaque, Jacó e, de forma mais geral, à santa nação de Israel, a todos os judeus que precederam Paulo e seus contemporâneos. Paulo depositou sua esperança em uma promessa feita por Deus. Deus fez muitas promessas no Antigo Testamento aos patriarcas, e muitas promessas se cumpriram na pessoa de Jesus Cristo (Gênesis 3:15, Isaías 43, Números 21:8-9, 2 Samuel 7:12-13 e muitas outras; Lucas 24:27, 45-48). (As passagens de Isaías sobre o “Meu Servo” são um exemplo fundamental de profecias messiânicas; veja nosso artigo sobre o tema complexo das profecias messiânicas no Antigo Testamento).
Paulo refere-se à promessa de Deus de enviar luz (Atos 26:23), que o Messias proclama à terra (Isaías 49:6). Essa luz é o próprio Jesus; Ele é a boa-nova (o evangelho) que conduz judeus e gentios das trevas para a luz e para a reconciliação com Deus. Mais especificamente, a promessa divina está fundamentada na ressurreição, o ato de trazer de volta à vida alguém que havia morrido. Essa é a questão central: a fé de Paulo está na ressurreição de Jesus Cristo, com a esperança de uma ressurreição futura, quando todo o povo de Deus ressuscitará para uma nova vida eterna. Todos esses elementos estão intrinsecamente ligados à ressurreição de Jesus (1 Coríntios 15:12-19).
Paulo explica que a esperança pela qual está sendo julgado reside na a qual as nossas doze tribos, servindo a Deus fervorosamente de noite e de dia, esperam alcançar; por causa dessa esperança, ó rei, sou acusado pelos judeus. (v. 7).
Paulo está demonstrando que nem ele nem os outros crentes em Jesus inventaram uma nova religião, adoram um deus diferente ou abandonaram a fé e o Deus de seus pais. A esperança de Paulo na promessa feita por Deus não é exclusiva dele; é a mesma promessa que nossas doze tribos esperam alcançar. Paulo menciona nossas doze tribos, incluindo Agripa II e a liderança judaica.
Essa é a herança que compartilham. As doze tribos representam todo o Israel, cada judeu, do passado e do presente; as doze tribos descendentes dos doze filhos de Jacó, a quem Deus chamou de Israel (Gênesis 35:10). Essa é a história deles. Essas promessas foram feitas a todos eles.
Essa promessa que Deus fez ao Seu povo escolhido é algo em que todos os judeus foram ensinados a depositar sua esperança. Essa promessa de um messias que traria a salvação foi feita por Deus em muitos lugares nas escrituras hebraicas (Isaías 42, 44, 61:1-2, Daniel 9:24-26, Zacarias 9:9, Jeremias 23:5 e outros). Todo o Israel aguardava ansiosamente que Deus enviasse um servo ungido para libertar os judeus da opressão e restabelecer Israel como um reino sob o Seu reinado.
Vimos evidências dessa ansiosa expectativa em Atos 1:6, quando, após Jesus ter ressuscitado dos mortos e pouco antes de ascender ao céu, os discípulos lhe perguntaram: "Senhor, é agora que vais restaurar o reino a Israel?". Jesus respondeu no versículo seguinte: "Não vos compete saber os tempos ou as épocas", indicando que a expectativa deles era apropriada, mas que somente o Pai conhece o tempo (Atos 1:7).
Os judeus esperavam pelo Messias e pelo reino eterno que Ele prometeu. Os judeus servem a Deus com fervor dia e noite, o que significa que são devotados a Deus; vivem toda a sua vida em submissão à Lei de Deus, na expectativa das Suas promessas. Dizer que servem a Deus dia e noite enfatiza que a totalidade das suas vidas está dedicada ao serviço de Deus.
Paulo está demonstrando que não é inimigo do povo judeu. Ele também é judeu. E sabe que os judeus servem a Deus com sinceridade, dedicando suas vidas a isso; ele não está questionando a sinceridade de ninguém em servir a Deus. Nem o rei a quem se dirige, nem os homens que tentaram matá—lo diversas vezes. Paulo está ativa e continuamente convidando todos os judeus a reconhecerem que sua esperança é a mesma esperança de todos os judeus devotos. A única diferença é que Paulo depositou sua fé na concretização dessa esperança: Jesus.
E por essa esperança, ó Rei, Paulo dirige—se novamente a Agripa II pessoalmente: "Estou sendo acusado pelos judeus". Os judeus pelos quais Paulo está sendo acusado referem—se à liderança judaica, aos sacerdotes e rabinos que detêm autoridade sobre o povo judeu e que acusaram Paulo de blasfêmia e de ser inimigo dos costumes judaicos, do templo e da Lei de Moisés.
Na realidade, Paulo crê na verdadeira esperança de Israel, o cumprimento das promessas de Deus na pessoa de Jesus, a quem os líderes judeus rejeitaram. É interessante observar que, embora Paulo reconheça o zelo religioso dos judeus como um todo, os líderes tomaram a decisão deliberada de priorizar sua situação política com Roma em detrimento de Jesus. Isso fica evidente em João 11:48-50, quando parte do Sinédrio opta por preservar seu “lugar” e sua “nação” em vez de aceitar Jesus, chegando a planejar Sua morte para manter o status quo com o Império.
Paulo está, na verdade, dizendo: “Deus fez uma promessa aos judeus. Os judeus depositam sua esperança nessa promessa. Eles vivem suas vidas depositando sua esperança na promessa de Deus. Eu também sou judeu. Eu mesmo já fui um fariseu rigoroso. Minha esperança está nessa mesma promessa. É por isso que estou sendo injustamente perseguido por nossos líderes. Eles dizem que estou atacando nossas tradições. Não estou. Minha fé está na promessa de Deus. E ela se cumpriu.” Paulo infere que acredita que a promessa de Deus se concretizou e que, na verdade, são seus acusadores que estão equivocados.
Ele está demonstrando que as acusações contra ele são absurdas. Ao longo de suas viagens missionárias e anos de proclamação do evangelho, Paulo insiste que a fé em Cristo é o cumprimento das promessas de Deus e das profecias das Escrituras Hebraicas, que são a palavra divina (Atos 13:16-41; 17:2-3, 11; 18:4-5; 1 Coríntios 15:3-4). Crer em Jesus de Nazaré é aceitar o cumprimento das Escrituras, não algo inventado ou contrário ao judaísmo. Da mesma forma, o apóstolo Pedro pregou com base no Antigo Testamento para mostrar que Jesus realizou as promessas de Deus (Atos 2:14-36; 3:12-26; 4:10-12), assim como Apolo (Atos 18:28).
Antes de prosseguir com a história de como ele se formou como fariseu e, eventualmente, se tornou um crente em Jesus, Paulo faz uma pergunta importante:
Por que é que se julga entre vós coisa incrível ressuscitar Deus aos mortos? (v. 8)
Essa questão vai ao cerne do motivo pelo qual Paulo está sendo julgado e explica por que a oposição contra ele se fundamenta na hipocrisia e na má-fé. Ela também defende todos os crentes em Cristo. As acusações contra Paulo afirmam que ele prega contra Deus, os costumes judaicos, a Lei e o templo. No entanto, sua defesa é que a fé em Jesus como o Messias ressuscitado é justamente o que os costumes, a Lei e o templo prefiguravam, de acordo com as promessas de Deus.
Sua pergunta demonstra a simplicidade e a sensatez de crer que Jesus, como Messias, ressuscitou dos mortos. Da mesma forma, ela ilustra que aqueles que se opõem a Jesus ou não têm fé, ou compreendem mal o poder e as promessas de Deus. Ou, ainda, o pecado endureceu seus corações, impedindo-os de reconhecer a verdade, e eles não estão sendo honestos sobre o que viram e ouviram.
Novamente, ao recorrer a João 11, vemos que os mesmos líderes judeus que acusavam Jesus reconheciam que Ele havia ressuscitado Lázaro. No entanto, em vez de considerar que Deus estava revelando Sua obra poderosa para que cressem, temiam: “Se o deixarmos assim, todos crerão nele, e os romanos virão e tirarão tanto o nosso lugar como a nossa nação” (João 11:48). Eles testemunharam a ressurreição, sabiam que era real, mas ainda assim recusaram-se a crer.
Paulo dirige a questão a toda a audiência, não apenas a Agripa II, e talvez a qualquer um de seus acusadores que porventura ainda estivessem em Cesareia. Por que alguém que crê em Deus Todo—Poderoso, ao mesmo tempo, zombaria da ideia de que Ele poderia ressuscitar os mortos ? Ele é Deus ou não? Se Deus é verdadeiramente Deus, não há nada de incrível ou inacreditável na afirmação de que Ele poderia ressuscitar os mortos. Ele é Deus. Ele pode fazer qualquer coisa.
Essa é uma questão fundamental que confundiu muitos judeus no primeiro século: se Jesus ressuscitou ou não, provando ser o Messias de Deus. Por isso, Paulo os exorta a refletir sobre essa questão. Eles creem em Deus. Creem nas Escrituras. Mas não creem que Deus fez o que prometeu.
Por que é considerado inacreditável entre vocês (Agripa II, os sacerdotes, os fariseus, o povo judeu devoto, da elite ou não) que Deus ressuscite os mortos? "Deus ressuscitou Jesus" é uma afirmação inacreditável? Por que isso os intriga? Que o Deus criador possa ressuscitar os mortos ? Acreditam que haja limites para o que Deus pode fazer? Parece que sim.
Curiosamente, esse também era um tema de intenso debate entre os líderes judeus. Os saduceus (os sacerdotes) não criam na ressurreição, em anjos ou na vida após a morte. Os fariseus (os mestres das Escrituras) acreditavam no poder de Deus para ressuscitar os mortos, em Seus mensageiros espirituais e que todo ser humano possui um espírito que sobrevive à morte física (Atos 23:8).
Para os saduceus, era considerado inacreditável que Deus ressuscitasse os mortos. Eles negavam veementemente essa possibilidade. Embora suas mentes estivessem decididas, a pergunta de Paulo é incisiva e atinge o cerne da questão. Em que tipo de Deus eles acreditavam? Eles limitavam suas crenças a este mundo, acreditando que não havia nada além dele para os humanos. Deus existia em algum lugar, e os sacerdotes se contentavam em arrecadar dinheiro do povo judeu para oferecer sacrifícios de animais a Ele. Mas, na prática, era só isso.
Jesus criticou os saduceus por sua falta de entendimento e incredulidade. Quando lhe fizeram uma pergunta insincera sobre o status do casamento entre os ressuscitados (enquanto eles próprios não acreditavam na ressurreição), Jesus lhes disse claramente: “Vocês estão enganados, porque não entendem as Escrituras nem o poder de Deus” (Mateus 22:23-33).
Para os fariseus, a ressurreição era uma possibilidade e até uma esperança genuína, embora a maioria deles negasse que Jesus tivesse ressuscitado. Jesus não correspondera às suas expectativas como Messias de Deus: não podiam controlá-lo, Ele agia independentemente de sua influência e ameaçava a relação com Roma, o que também colocava em risco sua posição e poder (João 11:48). Além disso, Ele criticava abertamente suas interpretações, aplicações e hipocrisias em relação à Palavra de Deus (Mateus 15:3-9; 16:6, 11-12; 23:1-36; Lucas 12:1; João 9:39-41).
Os fariseus acreditavam que Deus podia ressuscitar os mortos se quisesse, mas, segundo o preconceito deles, Jesus era uma exceção a essa regra. Eles queriam que Jesus permanecesse no túmulo, onde eles mesmos o ajudaram a sepultá—lo. Mas o Filho de Deus não havia permanecido morto.
Paulo pertencia à seita dos fariseus, como ele contará a Agripa II e à multidão na seção seguinte. Ele narrará em detalhes como outrora odiava Jesus e ajudou a matar seus seguidores, até que Jesus falou diretamente com ele. Foi então que Paulo compreendeu a verdade: Deus realmente ressuscita os mortos e Jesus era quem dizia ser.